Género de mamíferos carnívoros, da família dos felídeos.

20
Jan 09

 

Os animais foram
inacabados,
compridos de rabo, tristes
de cabeça.
Pouco a pouco foram-se
formando,
fazendo-se paisagem,
adquirindo sinais, graça,
vôo.
O gato,
só o gato
apareceu completo
e orgulhoso:
nasceu completamente terminado,
anda sozinho e sabe o que quer.
 
 
O homem quer ser peixe
e pássaro,
a serpente quisera ter
asas,
o cão é um leão confuso,
o engenheiro quer ser
poeta,
a mosca estuda para
andorinha,
o poeta trata de imitar
a mosca,
mas o gato
quer ser somente gato
e todo o gato é gato
desde o bigode ao rabo,
desde pressentimento a
ratazana viva,
desde a noite escura até
aos seus olhos de ouro.  
 
 
Não há unidade
como ele,
não tem
a lua nem a flor
tal contextura:
é uma coisa única
como o sol ou o topázio,
e a elástica linha em seu
contorno
é firme e subtil como
a linha da proa de uma
nave.
Seus olhos amarelos
deixaram uma única
ranhura
para lançar as moedas da
noite.  
 
 
Oh pequeno
imperador sem orbe,
conquistador sem pátria,
mínimo tigre de salão,
nupcial
sultão do céu,
das telhas eróticas,
o vento do amor
na tempestade
reclamas
quando passas
e pousas
quatro pés delicados
no chão,
cheirando,
desconfiando
de tudo o que é terrestre,
porque tudo
é imundo
para o imaculado pé do
gato.
 
 
Oh fera independente
da casa, arrogante
vestígio da noite,
preguiçoso, gimnástico
e alheio,
profundíssimo gato,
polícia secreta
das habitações,
insígnia
de um
veludo já desaparecido,
certamente não há
enigma nesse teu modo,
não és talvez mistério,
todo o mundo te conhece
e tu pertences
ao habitante menos
misterioso,
talvez todos o creiam,
todos se creiam donos,
proprietários, tios,
de gatos, companheiros,
colegas,
discípulos ou amigos
do seu gato.  
 
 
 
Eu não.
Eu não concordo.
Eu não conheço o gato.
Eu tudo sei, a vida e seu
arquipélago,
o mar e a cidade
incalculável,
a botânica,
o gineceu com seus
extravios,
o por e o menos da
matemática,
as depressões vulcânicas
do mundo,
a pele irreal do crocodilo,
a bondade ignorada do
bombeiro,
o atavismo azul do
sacerdote,
mas não posso decifrar
um gato.
Minha razão resvalou na
sua indiferença,
têm seus olhos números
de ouro.
publicado por SCortez às 15:31
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Janeiro 2009
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